Economia
Nova NR-1 exige combate a chefes tóxicos
Economia
A nova NR-1 entrou em vigor em 26 de maio cercada de manchetes, mas o que define se uma empresa será autuada começa agora. O Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu um período de cerca de 90 dias em que a fiscalização terá caráter prioritariamente orientativo, com foco em visitas e cobrança de adequação, janela que termina no fim de agosto e que funciona, na prática, como o último prazo para as organizações fazerem o que a maioria ainda não fez: tratar o comportamento das próprias lideranças como um risco ocupacional a ser identificado, documentado e controlado, nos mesmos moldes dos riscos físicos e químicos.
Sobrecarga, metas inalcançáveis, assédio e relações interpessoais prejudiciais agora integram obrigatoriamente o Programa de Gerenciamento de Riscos e a forma como um gestor conduz sua equipe deixou de ser assunto restrito ao clima organizacional para se tornar matéria de inspeção e de prova judicial.
Durante anos, empresas trataram lideranças tóxicas como um problema restrito ao clima organizacional, desconfortável, mas tolerável desde que os resultados fossem entregues. Agora, esse cenário começa a mudar. O avanço das discussões sobre saúde mental no trabalho e a atualização da NR-1 têm levado empresas a rever a forma como gestores conduzem equipes, pressionadas pelo aumento de afastamentos, alta rotatividade e risco crescente de judicialização.
A mudança acontece em meio a um cenário de desgaste cada vez mais evidente dentro das organizações. Pesquisa da The Harris Poll, realizada com trabalhadores americanos em 2026, mostra que seis em cada dez profissionais afirmam ter atualmente um chefe com comportamentos considerados tóxicos. Entre os entrevistados, 47% disseram ter enfrentado aumento de estresse, burnout ou piora na saúde mental em razão da liderança direta, enquanto 35% afirmaram ter perdido bônus ou recompensas financeiras por conta desse ambiente.
O levantamento também mostra que a toxicidade deixou de ser percebida apenas em situações extremas. Entre os comportamentos mais frequentes relatados estão microgestão excessiva, favoritismo, cobranças desproporcionais, falta de reconhecimento e gestores inacessíveis.
Segundo o médico do trabalho Dr. Marco Aurélio Bussacarini, especialista em Medicina Ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, a liderança direta passou a ocupar uma posição crítica dentro das empresas porque ela define a experiência cotidiana do trabalhador.
“O colaborador não experimenta a empresa pelo discurso institucional, mas pela atuação da sua liderança direta. É nesse nível que ele vivencia previsibilidade, reconhecimento e clareza ou pressão, insegurança e desgaste emocional”, afirma.
Rotatividade, afastamentos e perda de produtividade
Na avaliação do especialista, o principal erro das empresas foi tratar o problema como uma questão comportamental isolada, sem perceber os impactos operacionais e financeiros associados ao modelo de gestão.
“Turnover elevado, absenteísmo, conflitos recorrentes e queda de desempenho muitas vezes são analisados separadamente, quando na prática podem ser manifestações de um mesmo problema estrutural ligado à forma como a liderança conduz o trabalho”, diz.
Os reflexos começam a aparecer nos números das próprias empresas. Em um dos casos acompanhados pelo especialista, uma indústria registra rotatividade superior a 50% ao ano, exigindo praticamente a recomposição completa da força de trabalho em menos de dois anos. Em outro cenário, uma companhia com cerca de 460 funcionários convive diariamente com mais de 25 ausências, sendo parte delas relacionada a transtornos mentais classificados no CID “F”.
A pressão constante no ambiente corporativo também tem afetado decisões de carreira. Segundo a pesquisa da Harris Poll, 53% dos trabalhadores que convivem com chefes tóxicos afirmam já ter trocado de emprego por causa da liderança, enquanto 61% dizem planejar deixar a empresa assim que o mercado de trabalho melhorar.
Além do impacto sobre retenção de talentos, especialistas apontam que ambientes baseados em medo e urgência permanente reduzem segurança psicológica, comprometem inovação e aumentam falhas operacionais. O estudo da Harris Poll identificou ainda que 63% dos trabalhadores evitam denunciar comportamentos tóxicos por medo de serem vistos como “sensíveis demais” ou “não alinhados à equipe”.
NR-1 amplia pressão sobre empresas
Na prática, lideranças tóxicas costumam ser identificadas por comportamentos como cobrança pública de resultados, mudanças constantes sem alinhamento, metas inconsistentes, comunicação agressiva e ausência de critérios claros de avaliação.
“O trabalhador entra em estado contínuo de alerta. Isso reduz a concentração, aumenta a probabilidade de erro e compromete a tomada de decisão”, afirma Bussacarini.
O tema ganhou um novo peso após a atualização da NR-1, que amplia a exigência de identificação e gerenciamento de riscos psicossociais nas empresas. Na prática, organizações passam a ser cobradas não apenas por ações de bem-estar, mas pela capacidade de demonstrar tecnicamente como monitoram e controlam fatores ligados ao adoecimento emocional dos trabalhadores.
Segundo Bussacarini, esse ponto muda a lógica da discussão dentro das empresas.
“O problema deixa de ser interpretado apenas como comportamento pontual e passa a ser compreendido como um risco sistêmico, gerado pela forma como demandas, metas e relações são conduzidas”, afirma.
A preocupação cresce também porque muitas empresas ainda não possuem processos estruturados para documentar esse tipo de risco.
“Sem documentação técnica, a empresa entra em um processo trabalhista dependente de narrativa, e não de evidência”, diz o especialista.
Empresas tentam rever modelo de gestão
A pesquisa da Harris Poll indica que a toxicidade no trabalho está ligada à falta de preparo das lideranças: 7 em cada 10 trabalhadores já presenciaram comportamentos tóxicos agravados por falhas de treinamento, como falta de empatia, microgestão, feedbacks ruins e avaliações inconsistentes.
O especialista, Bussacarini, aponta que empresas terão de equilibrar performance e segurança psicológica, com maior integração entre RH, jurídico, compliance e saúde ocupacional diante dos riscos psicossociais. O diferencial será comprovar ações e resultados.
Economia
Fintechs são notificadas por operar recursos de bets ilegais
O Ministério da Fazenda notificou 37 fintechs suspeitas de intermediar recursos de casas de apostas ilegais e determinou que as instituições interrompam qualquer relação financeira com essas empresas. A medida é uma das ações do governo para combater o mercado clandestino de bets e prevê o bloqueio dos valores movimentados, que poderão ser destinados aos cofres públicos caso as novas regras não sejam cumpridas.
As notificações foram enviadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, em conjunto com a Receita Federal . Segundo o governo, as fintechs movimentaram recursos de cerca de 160 casas de apostas sem autorização para operar no Brasil, além de milhares de sites ligados a essas plataformas.
Os nomes das instituições notificadas não foram divulgados para preservar as investigações.
Prazo para adequação
As fintechs terão até 28 de agosto para se adaptar às novas regras aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) .
Até essa data, as instituições deverão encerrar o relacionamento com as empresas de apostas ilegais. Caso descumpram a determinação, poderão ser responsabilizadas solidariamente pelas operações e receber multas proporcionais ao montante movimentado.
A partir da entrada em vigor da resolução, as instituições terão 24 horas para bloquear todas as contas vinculadas às empresas notificadas.
Recursos bloqueados
A norma determina que, após o bloqueio, os valores depositados nas contas ficarão indisponíveis.
Também será proibida qualquer movimentação financeira destinada, direta ou indiretamente, à realização de apostas ilegais.
Os recursos bloqueados serão repassados ao Fundo Nacional de Segurança Pública, conforme prevê a regulamentação.
Base legal
A medida tem como fundamento um decreto editado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em junho, que criou mecanismos para bloquear recursos financeiros de casas de apostas ilegais e responsabilizar instituições que facilitem essas operações.
O decreto também autorizou a Secretaria de Prêmios e Apostas a notificar instituições financeiras envolvidas na intermediação de pagamentos para plataformas sem licença.
Embora as notificações já tenham sido enviadas, o governo decidiu conceder um período de adaptação antes da adoção das medidas de bloqueio e eventual abertura de processos administrativos.
Fiscalização ampliada
Segundo o Ministério da Fazenda, as 37 fintechs notificadas movimentaram recursos de aproximadamente 160 casas de apostas ilegais, responsáveis por mais de 40 mil sites .
Ao todo, o governo afirma já ter retirado do ar mais de 54 mil sites irregulares relacionados ao mercado clandestino de apostas.
A derrubada das páginas ocorre em parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), acionada pela Secretaria de Prêmios e Apostas.
Mercado irregular
De acordo com estimativas do governo, entre 41% e 51% das plataformas de apostas acessadas por brasileiros operam sem autorização, alcançando cerca de 25,2 milhões de usuários.
Essas empresas deixam de cumprir exigências impostas às operadoras regularizadas, como:
- pagamento da outorga de R$ 30 milhões;
- manutenção de sede no Brasil;
- constituição de reserva financeira para pagamento de prêmios;
- recolhimento de tributos;
- adoção de mecanismos de proteção ao apostador, como a autoexclusão;
- cumprimento das regras de publicidade e jogo responsável.
Regulamentação
A atividade de apostas de quota fixa foi autorizada em 2018, mas permaneceu sem regulamentação por vários anos.
A partir de 2023, o governo federal iniciou a estruturação do marco regulatório do setor, ampliando a fiscalização e estabelecendo regras para o funcionamento das empresas autorizadas.
A nova medida visa dificultar a atuação de plataformas clandestinas e reforçar o controle sobre um mercado que movimenta bilhões de reais por ano no país.
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